Heróis do Mar
Saudade
“Heróis do Mar”, 1981
Enquanto as armas descansam (saudade)
Deito os meus olhos aos céus (saudade)
Pelas estrelas dos teus
Amada
Senhora
Pomba de cristal
Senhora
Fogo de paixão
Enquanto as armas descansam (saudade)
Deito os meus olhos aos céus (saudade)
Por se não verem nos teus
Amada
Senhora
Lágrima do céu
Senhora
Morro de paixão
Enquanto as armas descansam (saudade)
Peito rasgado de amor (saudade)
Troa o rufar do tambor (saudade)
Amor quão longe tu estás
Amor quão longe tu estás
Amor quão longe tu estás
A BANDA
Ainda às voltas com a força das palavras que cantavam a revolução, Portugal só então começava a abrir os olhos para uma ainda imberbe cena pop. Desde aí foi forçado a admitir que, tal como a música, também as roupas, atitudes, poses e adereços representavam um papel importante. Os Heróis do Mar de Rui Pregal da Cunha, Pedro Ayres Magalhães, Carlos Maria Trindade, Paulo Pedro Gonçalves e António José de Almeida lançaram no início do Outono de 1981 aquele que é ainda um dos melhores álbuns de sempre da produção nacional. Heróis do Mar, com canções como «Brava Dança Dos Heróis» ou «Saudade», foi recebido com ferozes críticas e alimentou uma forte polémica feita de acusações de nacionalismo exacerbado. Rui Pregal da Cunha explica-se: «para mim aquilo era uma enorme mistura de referências que metiam no mesmo saco a História de Portugal, as sagas de aventuras japonesas que víamos no cinema e o Thor e o Balder não o da mitologia nórdica, mas o da Marvel Comics!». (…)
DA PISTA PARA OS ENSAIOS
Esta era a época em que ecos das revoluções de costumes já estabelecidas em Nova Iorque e Londres começaram, muito lentamente, a chegar até cá. Rui lembra-se, por exemplo, do espanto que foi descobrir o número 5 da icónica revista britânica The Face na loja Op de Paulo Nozolino «tinha a Soo Catwoman [antiga parceira de Sid Vicious] na capa» e de como cada uma dessas fontes era devorada com entusiasmo. Nesta altura já havia noites diferentes para pessoas diferentes – «o Pedro provavelmente parava mais pelo Brown’s, ali perto do Centro Comercial Roma, mas acabávamos todos por nos encontrarmos ao fim da noite no Trumps» – mas certos lugares acabavam por funcionar como pólos magnéticos atraindo gente de todos os quadrantes e sensibilidades. (…)
POP À PORTUGUESA
A ideia mais forte que Rui Pregal da Cunha transmite sobre esses primeiros tempos dos Heróis do Mar é a de um colectivo muito unido e disciplinado que toma todas as decisões em conjunto: «éramos muito unidos, ensaiávamos oito horas por dia, íamos ao cinema juntos para ver coisas que achávamos importantes. O que nasceu ali, nasceu de nós os cinco».
A ideia dos Heróis era apresentar um projecto completo à editora PolyGram: «queríamos levar a música já gravada, as fotos de promoção já feitas, a capa já desenhada, a roupa já escolhida». O que demonstra que nada foi deixado ao acaso e quando chegaram ao estúdio já todas as canções tinham a sua forma final. «A nossa técnica de gravação era muito simples», recorda Rui Pregal. «Tocávamos todos juntos, depois escolhíamos o melhor take e a partir daí cada um de nós regravava as suas partes».(…)
A QUESTÃO DO FASCISMO
«A minha memória, nem sei bem porquê, guardou daquele tempo sobretudo as coisas esquisitas e menos as coisas boas,» refere Rui Pregal. E a verdade é que muita coisa esquisita aconteceu de facto. António Duarte, autor do livro A Arte Eléctrica de Ser Português 25 anos de Rock n’ Portugal (Livraria Bertrand, 1984), foi o primeiro a entrevistar o grupo e a interpretar política e negativamente toda a imagética dos Heróis do Mar nas páginas do muito influente semanário Se7e. Paralelamente, Belino Costa, outro jornalista do Se7e, assinou um texto que rodava em torno da estupefacção que um extra-terrestre sentiria ao aterrar em Portugal e descobrir um grupo de cinco rapazes com vestes militares. De repente, o grupo viu-se imerso numa polémica imensa em que acusações de fascismo eram quotidianas. (…)
COM OS ROXY MUSIC
A polémica teve, no entanto, um lado extremamente positivo que o próprio Rui Pregal reconhece: «foi a melhor publicidade que podíamos ter tido». O grupo reforçou-se com todas as críticas negativas e enfrentou os tempos de peito aberto chegando até a protagonizar um gesto hoje praticamente impensável: em resposta a todas as acusações que consideravam infundadas, os Heróis do Mar e a sua editora fizeram publicar no Se7e um anúncio de página inteira com uma célebre frase de Fidel Castro «A história nos absolverá» em grande destaque. (…)
Já houve, como não podia deixar de ser, pelo menos duas tentativas de reunião dos Heróis do Mar. A primeira aconteceu há dez anos e, nas palavras de Rui Pregal, «se tivesse resultado teria levado o grupo a encerrar a Expo 98». A segunda foi no ano passado e teve como principal impulsionadora uma grande fã da banda, a mulher de Rui Pregal da Cunha: «ainda fizémos uns ensaios, mas descobrimos que tocávamos todas as músicas a metade da velocidade». «A verdade», conclui Rui Pregal, «é que é muito difícil voltarmos a funcionar porque sempre fomos demasiado perfeccionistas e para nos reunirmos hoje teríamos que voltar a ensaiar com o mesmo rigor e tentar usar tudo o que a tecnologia hoje nos oferece em termos de possibilidades de utilização de projecção de imagens, por exemplo, porque isso é que são os Heróis, um grupo que esteve sempre em sintonia com o seu tempo. E para fazer isso teríamos todos que abandonar as nossas carreiras durante uns seis meses no mínimo, coisa que se tornaria impossivelmente cara».
Publicado originalmente na revista BLITZ de setembro de 2006.

