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Literatura

Livro do Desassossego

Por Fernando Pessoa. Publicado em 1982

fernando pessoa

Publicado em 1982, quarenta e sete anos após a morte de Fernando Pessoa, “O Livro do Desassossego”, tem como autor Bernardo Soares, personagem criada pelo próprio Pessoa. É um livro biográfico com os pensamentos de um dos maiores autores do século XX.

“São as minhas confissões  e, se nelas nada digo, é que nada tenho para dizer.” É como Fernando Pessoa apresenta o livro que escreveu sob o heterónimo Bernardo Soares e onde revela a sua vida oculta.

A obra começou a ser escrita aos vinte e cinco anos de Pessoa, acompanhando-a o resto da vida e é como um labirinto onde o autor procura responder a questões como “quem sou eu?” ou “como posso explicar a realidade?” Dúvidas  fundamentais do modernismo, que teve em Fernando Pessoa um dos seus representantes máximos. A obra levou vinte anos a ser escrita e ficou incompleta. São mais de 500 textos sem principio, meio nem fim, escritos por aquele que criou três identidades distintas para o acompanharem na criação poética: o mestre Alberto Caeiro, o médico Ricardo Reis e o engenheiro Álvaro de Campos. Como testemunha de um Fernando Pessoa desconhecido, ficaram Bernardo Soares e “O Livro do Desassossego”.

Tinha sonhos que não cabiam na sua modesta condição de empregado de escritório. Por necessidade absoluta de viver outras vidas, inventava novas identidades. Fernando Pessoa era o “outro” de si mesmo. Múltiplo e universal, impossível de definir.

Dizia Fernando Pessoa que, entre a data do seu nascimento e a da sua morte, todos os dias eram seus. Mas, ironia das ironias, quem se quis manter distante do mundo deixou em legado uma obra universal.

Se assim não tivesse sido, os biógrafos encontrariam tarefa fácil: uma vida discreta, começada a 13 de junho de 1888 e terminada a 30 de novembro de 1935, quase sempre em Lisboa, tirando a adolescência passada na África do Sul, um curso de Letras incompleto, um romance vago com uma jovem de nome Ofhélia, um quotidiano feito de rotinas  nos mesmos cafés e nos mesmos curtos passeios; enfim, um discreto e apagado empregado de escritório, de fato escuro, óculos redondos, quase sempre de chapéu.

O mistério por detrás deste rosto fechado numa incerta melancolia, como se estivesse retirado de si mesmo, morava na solidão dos quartos alugados onde escrevia em noites seguidas sem sono. Poeta do desassossego, poeta fingidor, poeta fazedor de sonhos, criador de heterónimos, “procurava sentir as coisas de todas as maneiras”.

Para quem escrevia “como se fosse muitos”, apenas publicou em vida “Mensagem”, poema patriótico traduzido em 15 línguas ( agora com uma edição em braille), alguns poemas e contos em jornais e revistas, como a Orpheu, que fundou com Almada Negreiros, Mário de Sá-Carneiro, Santa Rita Pintor, entre outros, para afirmar o modernismo em Portugal.

Poeta, escritor, filósofo, impossível de catalogar, Fernando Pessoa deixou uma das mais relevantes obras de literatura e ainda milhares de documentos numa arca ainda por catalogar. O poeta Arnaldo Saraiva apresenta nesta peça uma curta biografia.

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Rally tascas: beba como Fernando Pessoa

 

Já pensou fazer um rally tascas com Pessoa? Este é o roteiro pelas tascas e sítios do poeta e dos seus heterónimos

Desde a morte de Fernando Pessoa que a frenética existencial do poeta é tema. As cartas, os poemas, os heterónimos, a urgência na criação levou-o além da centena de trabalhos e deixou algumas questões por responder: como é que, em 47 anos, o autor de “Tabacaria”, “Mensagem” ou “Ode Triunfal” pôde ser tão profícuo e tão bom cliente dos botequins da cidade? A verdade é que o foi, contornando histórias de vinho, absinto e ópio, palmilhando as ruas de Lisboa de café em café, tasca a tasca. Alguns dos espaços desapareceram, outros transformaram-se, mas uns continuam por cá. Neste dia da poesia vamos recriar os passos de Pessoa de forma recreativa: um rally tascas pelos sítios onde o poeta bebeu

Café A Brasileira, Chiado

A Brasileira tornou-se um sítio de passagem e ponto de encontro, com a estátua de Lagoa Henriques a provocar selfies de turistas ao colo de Fernando Pessoa. Mas ainda por ali paira alguma da mística do lugar, palco de tertúlias intelectuais da geração de Orpheu, a justificar uma reconciliação. Isto para não falar de ser obrigatório carimbar no passaporte de todos os lisboetas com um café ao balcão, vindo do lote da casa.

A Licorista e o Bacalhoeiro, Baixa

A data de fundação dos dois espaços é a mesma: 1917. Mas há mais a unir estas duas casas históricas da cidade do que o ano de nascimento. Na primeira, o nome original era Companhia Portugueza de Licores, e a figura fundadora foi Abel Pereira da Fonseca. Era aqui que Fernando Pessoa rumava diariamente para um copo de palhete. E foi aqui, também, que o poeta terá sido “apanhado em flagrante delitro”. No restaurante há um painel de azulejos alusivo a esse momento. Na segunda, O Bacalhoeiro, viveu-se o legado do comércio de bacalhau até aos dias de hoje, e o bicho passou da balança ao prato, servido de todas as formas e feitios. Em 1997 os espaços foram unidos por uma passagem interior e transformados em restaurante, mantendo os nomes.

Beira Gare, Santa Maria Maior

Ir ao Beira Gare e não comer uma bifana é como ir a Roma e não ver o Papa. Um sacrilégio. E aqui não há desculpa que lhe valha, muito menos argumentar que não tem tempo para almoçar. Entre pedir e tê-la debaixo do nariz são menos de dois minutos. Talvez fosse por isso que Pessoa fez do Beira Gare ponto de encontro com o irmão de Ofélia, Carlos Queiroz. Afinal, até as lendas precisam de comer.

Martinho da Arcada, Santa Maria Maior

A mesa onde Fernando Pessoa escreveu muitos dos seus poemas continua reservada para o poeta, mas todas as outras estão disponíveis para se provarem pratos típicos portugueses. Neste café-restaurante servem-se pastéis de bacalhau, peixinhos da horta, amêijoas à Bulhão Pato, arroz de pato, bacalhau à lagareiro ou o bife à Martinho.

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